Escrevo porque nem tudo o que sinto encontra lugar numa conversa.

Há pensamentos que chegam devagar, quase em silêncio, e ficam dentro de nós à espera de uma palavra que lhes dê forma. Enquanto não os escrevemos, parecem apenas inquietações. Quando os colocamos no papel, começam a fazer sentido.

Durante muito tempo pensei que escrever fosse apenas contar histórias. Hoje sei que é muito mais do que isso.

Escrever é uma maneira de olhar para a vida duas vezes: primeiro, quando a vivemos; depois, quando tentamos compreendê-la.

Escrevo sobre lugares por onde passei, pessoas que conheci, momentos que me transformaram e outros que, apesar de parecerem insignificantes, deixaram em mim uma marca. Algumas memórias regressam com uma nitidez inesperada. Outras chegam incompletas, como fotografias antigas onde o tempo apagou os contornos. Mas todas trazem consigo alguma coisa que merece ser escutada.

A escrita permite-me guardar o que a vida, inevitavelmente, vai levando.

Não escrevo porque tenha respostas para tudo. Talvez escreva precisamente porque continuo a ter perguntas. Sobre o amor, a perda, o tempo, a fé, o destino e essa estranha viagem que fazemos entre o nascimento e a morte, tentando perceber quem somos e porque estamos aqui.

Também não escrevo para ensinar ninguém a viver. Cada pessoa carrega a sua própria história, as suas feridas e as suas verdades. Escrevo apenas aquilo que vejo e sinto, na esperança de que, algures, alguém reconheça nas minhas palavras uma parte de si.

É essa, talvez, a verdadeira importância da escrita.

As palavras aproximam pessoas que nunca se encontraram. Atravessam fronteiras, sobrevivem às vozes que as pronunciaram e permanecem quando já não estamos presentes. Um texto escrito na solidão pode, muitos anos depois, fazer companhia a alguém que também se sente só.

E então compreendemos que escrever nunca é um gesto completamente solitário.

De um lado está quem confia ao papel uma parte de si. Do outro, alguém que lê e, por alguns instantes, deixa de caminhar sozinho.

É por isso que escrevo.

Para não deixar desaparecer aquilo que amei. Para tentar compreender aquilo que perdi. Para dar voz ao que permaneceu em silêncio.

E, quem sabe, para deixar acesa uma pequena luz no caminho de alguém.